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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

História


´´Um homem foi a um alfaiate, e provou um fato. Parado em frente ao espelho, apercebeu-se que o colete tinha uma aba um pouco mais descaída que a outra.
 - Ora essa - comentou o alfaiate - não se preocupe com isso. Com a mão esquerda, puxe a parte mais curta um pouco para baixo e verá que ninguém vai notar.
O cliente assim fez, mas entretanto apercebeu-se que também a lapela do casaco estava um pouco enrugada em vez de estar lisa como devia.
Ah, isso? - comentou o alfaiate - Isso não é nada. Vire um pouco a cabeça e ajeite-a com o queixo. O
cliente assim fez mais uma vez, mas ao fazê-lo apercebeu-se que a costura interior das calças estava um pouco curta e que o gancho estava um pouco apertado.
- Ora, não se preocupe com isso - sossegou-o o alfaiate - Com a mão direita puxe a costura um pouco mais para baixo e verá que tudo se assentará na perfeição.
O cliente acedeu e acabou por comprar o fato.
No dia seguinte vestiu o fato novo com todas as ''modificações'' ajudadas por mão e queixo. Enquanto se arrastava pelo parque como o queixo apoiado na lapela, uma mão a puxar o colete e a outra agarrada ao gancho das calças, dois velhotes que jogavam damas pararam para observá-lo cambaleando perante os seus olhos.
- Deus do céu! - exclamou o primeiro homem - Olha-me aquele pobre homem manco!
O segundo homem refletiu por um instante, depois murmurou:
- Sim, uma pena mancar tanto, mas pergunto-me eu... onde terá arranjado um fato tão bonito?´´

Quantas vezes andamos impecáveis aos olhos da sociedade, mas por dentro estamos tolhidos de tanto esforço por parecer. A sociedade diz: está bem.. a pessoa está tolhida, mas olha como está tão bem, faz tudo tão direitinho, é tão certinha e faz tão boa figura!
E assim continuamos meios tortos a tentar parecer muito bem, quando por dentro estamos cada vez mais enfraquecidos, longes de nós mesmos, colocando capas e fazendo constantes fugas à nossa essência, estabelecendo prioridades para satisfazer o nosso ego, e assim, tornar o 'nosso fato' cada vez mais lindo.
Até ao dia em que a nossa beleza interior se apaga, se perde no labirinto da vida, onde o caminho de volta, muitas das vezes, demora o resto das nossos vidas e chega a ser doloroso.
O disfarce provoca o nosso enfraquecimento interior, a nossa capacidade de viver realmente, a nossa criatividade, alegria, sonhos, criança interior, lado selvagem... tudo é diminuído, e em compensação o nosso ego aumenta.
Para que isso não aconteça é preciso estar atento. É humanamente impossível mantermo-nos constantemente conectados com o nosso interior, dia e noite, mas é possível desenvolvermos os nossos alertas, para quando estivermos já com o pescoço torto para segurar na lapela, nos lembrarmos que ali reside uma particularidade da nossa alma que estamos a tentar esconder, mas que faz parte de nós, e que afinal é o que nos dá equilíbrio, apesar de aos olhos da sociedade isso não pareça tão bem...

Meditar é uma ótima ferramenta para estarmos conscientes e atentos às armadilhas da vida.

Um abraço

Filipa